Imagine oferecer à sua gata um pedacinho de chocolate ou um biscoito doce e vê-la cheirar, lamber… e depois ignorar completamente. Muitos donos de gatos já repararam nisso e perguntam-se: será que as gatas não gostam de doce? A verdade é ainda mais surpreendente: as gatas praticamente não conseguem sentir o sabor doce. Mas porquê? E que outros sabores dominam o paladar felino?
Vamos descobrir o que a ciência diz sobre o sentido do paladar das gatas — e porque é tão diferente do nosso.
O paladar das gatas: muito mais limitado do que o nosso
As gatas são carnívoros obrigatórios — a sua sobrevivência depende exclusivamente de proteínas e gorduras de origem animal. Por isso, ao longo da evolução, o seu sistema gustativo adaptou-se para detetar o que realmente importa: carne fresca, gordura e nutrientes essenciais.
Enquanto os humanos têm cerca de 9 000 papilas gustativas e os cães cerca de 1 700, as gatas possuem apenas cerca de 470. Este número reduzido já indica que o paladar não é o seu sentido principal (o olfato e o tato das vibrissas são muito mais desenvolvidos).
As gatas conseguem distinguir quatro sabores básicos:
- Ácido
- Amargo
- Salgado
- Umami (o sabor carnudo, “sabor a carne”)
Mas há um sabor que praticamente lhes escapa: o doce.
Porque é que as gatas não sentem o doce (ou sentem muito pouco)
A incapacidade de saborear o doce está ligada a uma mutação genética antiga. As gatas perderam um dos dois genes responsáveis pelo recetor da doçura (Tas1r2). Sem este gene funcional, o cérebro felino não consegue processar a sensação de “doce” da forma como nós ou os cães fazemos.
Estudos científicos (nomeadamente um publicado em 2005/2006) confirmaram: as gatas têm apenas um dos recetores necessários para detetar a doçura. Por isso, mesmo que provem algo muito doce em alta concentração, não o percebem como agradável ou apetecível — ao contrário de nós, que associamos o doce a prazer e recompensa.

A vantagem secreta: superdetecção de amargo
Enquanto o doce é quase inexistente no paladar felino, o amargo está hiperdesenvolvido. As gatas têm o mesmo número de recetores amargos que os humanos, mas sete deles são particularmente sensíveis e bem desenvolvidos.
Esta capacidade acrescida ajuda-as a evitar toxinas: a maioria das plantas venenosas, químicos e substâncias perigosas tem um sabor amargo intenso. Para uma gata selvagem ou que explora o exterior, esta “alarme amargo” pode ser literalmente uma questão de vida ou morte.
Porque é que algumas gatas lambem doces ou sobremesas?
Muitos tutores já viram a sua gata tentar comer gelado, iogurte doce, chocolate ou bolos. Mas não é o açúcar que as atrai. Na maior parte dos casos, são atraídas pela gordura, pelo cheiro lácteo ou pela textura cremosa — não pelo sabor doce em si.
Por isso, mesmo que uma gata coma um pedaço de bolo, está a reagir à gordura e ao aroma, não à doçura. E atenção: chocolate, uvas, cebola e muitos doces são tóxicos para gatos — por isso, nunca partilhe!
O que as gatas realmente “saboreiam”
- Sim: ácido, amargo (muito bem!), salgado, umami
- Quase não: doce (praticamente ausente)
- Motivo evolutivo: dieta exclusivamente carnívora — sem necessidade de detetar açúcares
O paladar das gatas é uma ferramenta de sobrevivência, não de prazer gastronómico. Elas “saboreiam” o mundo principalmente pelo olfato e pela textura, e o seu cérebro está programado para caçar e identificar carne, não para apreciar sobremesas.
Se alguma vez se perguntou porque é que a sua gata ignora os doces ou porque deteta um comprimido amargo escondido na comida num piscar de olhos… agora já sabe! O paladar felino é pequeno, mas extremamente especializado — e isso faz todo o sentido na vida de uma predadora nata.
Já reparou que a sua gata rejeita algo doce ou deteta amargor com facilidade? Conte-nos nos comentários!


